Olá Gabe, tudo bem? Conheci o Malvadas.org por meio de uma amiga, numa conversa de bar. De primeiro ponto, não imaginaria que me submeteria a contar um problema pessoal, para ser exposto na internet. Mas logo vi, que essa é uma forma de termos várias opiniões e ângulos diferentes sobre um mesmo assunto, assim sendo, podendo resultar numa solução.
Me chamo Wilson Navarro. Tenho 25 anos e namoro a mais de 10, quase 11 anos. Conheço minha namorada desde o ensino fundamental… Enfim, temos uma relação quase perfeita. Diria que somos almas-gêmeas. Bom, para ir ao meu problema no relacionamento, preciso contar um pouco de minha história. Meu pai é um exemplo de pessoa, super-inteligente, fiel, leal, calmo, enfim, todas qualidades que fazem dele até um chato. E é um concursado federal. Minha mãe é uma batalhadora, professora, enfermeira, se dedica extremamente a ajudar as outras pessoas, mesmo ela não precisando de um salário, já que meu pai sempre sustentou a família muito bem sem problemas. Eles são casados a mais de 30 anos.
Tive uma infância toda vivida num bairro pobre, onde toda minha família foi criada ( tios, primos, avós, etc ). Não por necessidade, mas por aprendizado. Meu pai e minha mãe sempre prezaram uma educação com a vida. E assim também aconteceu com meus irmãos. Tínhamos condição de ter uma casa melhor, de termos mais um carro, mas a simplicidade é algo que sempre apeteceu minha família. E isso é uma riqueza para mim, algo que nunca quero deixar para trás, não há valor nesses ensinamentos que recebi. Convivi com a pobreza de perto, vi pessoas em condições péssimas, dormi sob um teto que não sabia se ia aguentar a forte chuva. Não sou apegado ao luxo, em nossa casa não usávamos chuveiro elétrico, não usávamos ventilador e era comum dormirmos no chão. Raramente eu usava ônibus para ir a escola, caminhava de 6 a 7 km por dia para chegar a escola. E não, não estou reclamando, gostava muito dessa época. Era feliz.
Minha namorada por outro lado, é acostumada ao luxo. A mãe dela é médica, e o pai é empresário e ela mora na parte “rica” da cidade. Ela tem 24 anos ( está perto de se formar ) e já tem todo um futuro profissional traçado. Ela almeja um salário astronômico, almeja ter tudo aquilo que eu nunca fiz questão de ter. E nesse ponto nós discutimos muito. Ela não aceita que eu ( sou formado em Teparia Ocupacional ) tenha um salário razoável e viva em função de ajudar outras pessoas. Na visão egoísta dela, não estamos no planeta para servir, ela só quer se estabelecer no mercado profissional, e ser reconhecida por isso. Somos opostos nesse assunto, e isso tem deixado nossos dias confusos. Os pais delas a pressionam para terminar a faculdade e começar sua vida adulta de vez, morar sozinha, trabalhar em tempo integral…
Bom, em uma discussão sobre esse assunto, não sei se ela falou da boca pra fora, ela disse que não se via casada com uma pessoa “fracassada”. Será que é fracasso abrir mão de um salário que nem sei como gastá-lo todo ? Será que é fracasso sentir-se feliz ajudando os outros, abrindo mão de coisas tão triviais, como um banho quente ou um ar-condicionado ?
No momento eu fingi que não a ouvi. Deixei a poeira a baixar, e conversamos novamente. Eu ainda moro no mesmo lugar, rodeado de pessoas que não largaria por nada. Meus pais ainda se dedicam a uma vida simples ( mesmo sem precisar sustentar ninguém ), agora eles ajudam a comunidade e o restante da família. Minha namorada odeia o lugar de onde sou, vi ela reclamar diversas vezes, quando dizia sobre as pessoas de lá, dizendo ser uma roça, e outras coisas do tipo. Nunca vi isso como ofensa, adoro o campo, e coisas naturais. Mas acontece que eu negligenciei essa atitude dela, e nada irá mudá-la em sua forma de pensar.
Recentemente estamos em um ultimato. Ela está em seu último período na faculdade, os pais delas compraram-lhe um apartamento. Eu não me vejo saindo de onde eu moro, não me vejo mudando de profissão, ou cobrando valores absurdos, apenas para dá-la um padrão social. E ela por outro lado já disse que não irá morar comigo naquela “roça”, e nem pretende ter uma vida mediana. O restante do relacionamento é perfeito. Ela é amável, carinhosa, atenciosa. Nos damos muito bem, e nesses 10 anos, nunca nos separamos, e essa parece ser a primeira grande discussão, que pode resultar em algo negativo.
Sou maleável, e ela sempre pôde contar comigo. Abri mão mais uma vez, me ofereci para morar com ela ( no apartamento ) sendo que não misturasse nossas vidas profissionais. Ela ficou toda feliz, e decidimos fazer uma adaptação. Moraríamos juntos durante este último período em sua faculdade, e veríamos o resultado. O resultado para ela está ótimo. O apartamento é lindo ( eu nunca teria condições de ter um ), ela tem um carro novo, e todo aquele luxo que quer. Para mim, não pareço ser mais o mesmo. Entrando num prédio onde um porteiro me chama de “senhor”, onde o pessoal da limpeza abaixa a cabeça quando eu passo por um lugar. Onde existem dois elevadores, e um destes só podem ser usados por moradores, outro só para empregados. Que mundo distorcido é este minha gente ?
Sinceramente, estou deprimido, triste e acabado. Minha namorada já percebeu, vem me fazendo perguntas e não quero desapontá-la. Ainda falta mais de um mês ( as faculdades estavam em greve, e a formatura dela foi adiada ) para avaliarmos a situação, tinha prometido a ela que ficaria os 6 meses no apartamento. Ela já me disse que não se mudará, e eu tenho certeza que não vou morar lá. Ela diz quase todo dia que está adorando a experiência de morarmos juntos lá.
Então, há alguma forma de resolver essa situação ? Ou o fim do relacionamento é evidente ? Será que o “amor” pode superar tudo ?
Bom, disse a ela que podemos tentar morar em casas separadas, até ela se firmar profissionalmente. Mas ela insiste que não há motivos para morarmos separados, sendo que temos uma vida já construída. O que não deixa de ser verdade.
Definitivamente meu salário não dará a vida que ela quer. Mas eu amo ela demais, e as vezes penso em atingir outro nível profissional. Só que sei que isso não vai me realizar, e mudar minha ética pelo amor de minha vida é algo a se pensar.
Então cheguei ao final da conclusão, vale a pena desistir dessa vida simples que tenho, pela mulher que amo ? Vale a pena se render ao sistema, para ser feliz no “futuro casamento” e infeliz pessoalmente ?
É isso, um grande abraço Gabe, gostaria da sua opinião.