Booger Network

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Booger Network é uma compilação de blogs dispostos em diversas categorias. Estamos em fase de expansão e em breve teremos mais blogs e diferentes categorias.

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.: Malvadas :. » Contos e Textos

O valor de uma aliança

por em 21/09/2009 às 19:40

“Receba esta aliança como sinal do meu amor e da minha fidelidade”. Não é esse o voto que os noivos fazem no casamento? Acho que alguns simplesmente esquecem. Meu chefe com certeza não sabe sobre o simbolismo do anel nupcial. Para alguns, a troca de alianças é um convite ao selamento matrimonial; para outros, apenas um objeto de pura vaidade e capricho. Para o meu chefe ele serve somente do portão para dentro de casa. Sim, ele tira ao cruzar o portão.

Hoje ele foi almoçar com a esposa e saiu apressado do escritório. Pensei que teria meu tempo livre para uma boa cochilada no sofá. Mas como eu sou eu, murphy agiu. Meu celular toca freneticamente.

- Alô?
- D., tudo bem? Você precisa me ajudar.
- O que aconteceu, chefe?
- Eu sei que você está no seu horário de almoço, mas preciso que você traga minha aliança que eu deixei na primeira gaveta.

Respirei fundo. Muito fundo. Como alguém pode esquecer a aliança no dia em que comemora 25 anos de casado? O anel não representa um poderoso elemento de ligação entre o casal?

- Pegue um táxi e me traga aqui.
- Mas, mas…
- Obrigado, saberia que poderia contar com você.
- M…
- Tu, tu, tu.

Que desgraçado. Chamei um táxi e fui. Fiquei analisando aquela aliança. Por outro lado, o que adianta um anel no dedo? Poderia ser, inconscientemente, um intercâmbio? Ou seria uma das partes recebendo a essência da alma da outra? Eu só vejo uma série de equívocos sobre usar ou não uma aliança.

Meu chefe, por exemplo, vê como se fosse uma placa dizendo: “Cuidado. Homem casado. Afaste-se!” ou “Possui dona raivosa”. Aliança é uma forma de afastar mulheres mal intencionadas? E aquele papo todo de “Elas preferem os casados?”. Se fosse pensar assim, homens teriam gosto de usar aliança para arrumar essas moças. Eu acho que quem não usa, tem um problema sério. Não aguentam carregar o peso da relação na mão.

E isso não é somente com os homens não. Vocês sabiam que têm mulheres que usam alianças sem serem comprometidas? Quer uma maneira melhor de conquistar homens sem que eles pensem que você vai grudar no pé deles? Tem aqueles que até preferem as casadas. Enfim…

Cheguei no maldito restaurante. A cara suada de desespero do meu chefe fez com que a minha raiva passasse e eu começasse a me divertir. Ele enfiou a aliança no dedo, suspirou e agradeceu. E aqui estou eu agora, em casa. Certamente ele não vai reclamar de não me achar no escritório, não hoje.

Covarde

por em 18/09/2009 às 16:57

Você vem para cima de mim como se pudesse e tivesse direito de falar um monte de merda vomitada dessa sua boca escrota. Mas espera aí, o que você me ensinou? Nada. Nada! Eu que te ensinei. Fui eu quem te explicou o que é ter dor e sobre a solidão e a paixão e o medo e o que se passa no teu coração. A única coisa que você disse foi um amontoado de frases bonitas e o pior, disse coisas única e exclusivamente para me enganar. Não, não, desculpe. Por um momento estou sendo injusta. Você me ensinou da pior maneira possível que nenhuma solidão é forte o bastante para derrubar a sua arrogância. Me ensinou também que nós dois somos exatamente iguais, pateticamente iguais, com uma pequena diferença: você tem medo de ir até o fim. Mas agora o que eu fiz pra você e o que você fez comigo não importam mais. Ficamos empatados. Você anda na escuridão da sua vida. Apaga a luz pra que ninguém te enxergue. Perigoso é morrer sem viver. Mais uma bebida. Mais um prego no coração. Não faz diferença, o meu já está todo furado mesmo. Quase não dá mais para sentir. Sou contra a pena. De mim, de você. Pena é para os fracos. E você não é fraco. É tudo tão fácil. Ver é sempre bom. Você só precisa abrir os olhos.

Só se você me amasse

por em 15/09/2009 às 20:03

Se você tivesse segurado minha mão enquanto eu saía de perto, eu teria ficado. Mas só faria isso se tivesse absoluta certeza que você quisesse que eu ficasse. Eu poderia ter ido com você. Poderia ter ido até o inferno. Até o deserto. Até o céu. Não importa a distância que eu tivesse que percorrer. Eu teria ido até onde você quisesse me levar. Não importa como. Poderia vendar meus olhos que eu seguraria na sua mão. Eu confiaria em você. Sem motivo. Confiaria até no seu silêncio. Confiaria na sua respiração fria. Poderíamos tanto. Um romance, um sexo, um cachorro, um livro, uma casa, um filho, uma vida. Poderíamos. Você não quis. Eu parti e vi evaporar o sentido da minha vida pelos meus olhos. Eu poderia fazer tudo com você. Eu posso, mas não vou. Eu não quero mais você. Então, não vou. Eu só iria se você me amasse.

"Mas barra não é qualquer um que segura, certo?"

por em 11/09/2009 às 21:57

Eu troquei a roupa de cama e as fotos no mural que ficava em cima da minha cama. Mudei a disposição dos móveis, até pensei em trocar a cor das paredes, mas depois desisti em pensar no trabalho que daria, afinal, as pobres paredes não tinham nada a ver com as minhas lágrimas e com a minha tristeza.

Apaguei algumas músicas do meu celular e do meu computador, e baixei músicas novas. Comprei filmes novos, passei a ver outros canais, escutar rádio, ler mais. Saí da mesmice. Mudei os caminhos que eu fazia todo dia, cada dia eu entrava em uma rua diferente, mesmo que o destino fosse o mesmo.

Me obriguei a sair e acabei conhecendo pessoas novas. Fiz amigos novos e viajei pra lugares que eu não conhecia. Conheci lugares em São Paulo que eu não fazia idéia que existiam, e re-conheci meus amigos de outrora. Passei a amar menos os amigos por quem eu era apaixonada, e me apaixonei por aqueles que eu não colocava muita fé. Troquei de amigos, de idéias e de objetivos.

Renovei meus pensamentos. Cada dia eu me preparava para uma notícia boa, para uma coisa inesperavelmente boa. Me renovei. Passei a caminhar mais, respirar mais, aproveitar mais as flores e a grama, e passei a cuidar de mim, da minha pele, da minha aparência, da minha alma. Consegui me lembrar como eu ficava bem perto da minha família, e cada vez os sinto mais próximos de mim, os chamados laços de sangue.

Cresci. Me reconheci mulher e forte, e capaz de segurar a barra. Segurei a barra da solidão, da rejeição, de pensar que eu era a pior das mulheres, de que fui capaz de perder o homem que eu amava e que estava comigo, de que não havia luz nem no final do túnel para onde eu pudesse olhar. Tateei no escuro, caí e levantei muitas vezes, chorei sozinha até dormir e acordei com a cara inchada durante semanas, fui indagada porque tanta tristeza muitas vezes. Mas caminhei, lentamente, sozinha, sem muletas nem esperanças.

Hoje, depois de 4 meses que houve o rompimento definitivo, eu me vejo melhor do que eu era. Voltei a fazer mil planos e ter a ânsia de vê-los concretizados, a acreditar que tem um futuro brilhante só esperando para ser construído por mim, e que as pessoas acreditam em mim e no meu potencial. Não foi fácil passar por tudo o que eu passei até agora, e não vai ser fácil continuar, também porque nada na minha vida foi fácil e veio de graça até agora, mas acho que eu sou uma pessoa destinada a segurar barras, a ser forte e não ficar de mimimi, por mais que eu adore um drama.

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Esse é o meu quarto post e eu ainda não me apresentei *sem educação*. Eu sou a Michele, mas pode chamar de Mixa, gosto mais assim! Eu sou a “não mais tão” nova colaboradora do Malvadas, e eu tô aqui pra postar os meus #mimimis de sempre, textos que eu escrevo como forma de terapia, de me entender e de não enlouquecer. Eu estou muito feliz por estar postando aqui, e agradeço a recepção e os comentários!! :)

Um amor feito de cutucadas

por em 10/09/2009 às 21:12

Anita assistia à TV enquanto Pedro, deitado a seu lado, lia um exemplar da Veja. Ela deu uma conferida no relógio sobre a mesa de cabeceira. 22h15. Voltou a fixar os olhos no aparelho de TV, mas não prestava atenção ao que era exibido. De rabo de olho, viu Pedro apagar a luz do abajur e pousar os óculos e a revista sobre o criado-mudo. Preciso como uma relógio suíço, pensou ela. Continuou a assistir à TV fingindo-se concentrada. Um, dois minutos, e então sentiu a cutucada em seu braço. Era a hora do sexo.

O casamento de Anita e Pedro, como a maioria dos casamentos com mais de 20 anos, ia de mal a pior. Era sempre a mesma coisa. Todas as quintas-feiras Pedro chegava do trabalho, jantava – e enquanto comia falava sobre trabalho-, depois seguia para o banho, deitava-se ao lado de Anita, lia por mais ou menos meia hora, apagava a luz e a cutucava por baixo das cobertas. Era sua maneira de dizer que queria sexo.

Anita, no entanto, estava determinada a mudar essa rotina. Achava-se até um pouco culpada pelo que estava acontecendo. Talvez não estivesse mais provocando o desejo em seu marido. Quem sabe sua negligência e passividade tivessem contribuído para transformar sua vida sexual num triste espetáculo. Ela refletia sobre isso enquanto mirava-se no espelho. Apesar da idade, ainda possuía seus encantos. “Anita, você ainda é capaz de despertar a libido de um homem”, disse para si mesma.

Voluntariosa e decidida, escolheu uma segunda-feira para por em prática seu plano. À tarde, antes de Pedro chegar do trabalho, dedicou-se a uma prolongada sessão de embelezamento. Banho relaxante de banheira, cremes, maquiagem, perfume. Sentia-se bem e pronta para despertar o garanhão adormecido em seu marido. Como de costume, foi para a cozinha preparar o jantar. Vestia apenas um pequeno avental. Nada por baixo, apenas a minúscula peça cobrindo seu corpo.

Pedro chegou pontualmente às 19h. Entrou pela porta da cozinha como de hábito. Pedro raramente mudava seus hábitos. Anita, de costas para a porta, fatiava legumes para a salada. Inclinou-se deliberadamente sobre a bancada ao lado da pia quando ouviu Pedro entrar. A posição deixava ainda mais exposta suas nádegas. Tinha uma bela bunda. Vistosa, de pele viçosa, e firme para sua idade. As pernas bem torneadas também não faziam feio.

- Mas o que significa isso, mulher? – perguntou Pedro atônito.

Anita não respondeu. Virou-se de frente, mãos apoiadas sobre a bancada, e fitou-o com um olhar sensual e penetrante por alguns segundos. Então, partiu em sua direção. O rosto de Pedro exprimia um misto de surpresa e medo. Parecia um colegial virgem diante de uma bond girl. Ela o empurrou em direção à sala. Não dizia nada; era desnecessário falar. Seus olhos e a expressão corporal falavam por si só. E a mensagem era clara: “Estou no cio e vou te comer Pedro.”

Se Anita incorporava a femme fatale, a bond girl, Pedro estava anos-luz de se parecer com um James Bond. Ela havia quebrado o ritual. Não era quinta-feira, ele não havia jantado, tomado banho, lido sua revista e, o mais importante, a cutucado. Pedro era um homem que gostava de tomar a iniciativa na cama. E tomar a iniciativa, no seu modo de ver, era chamá-la para o sexo. Cutucando-a. Anita ficou literalmente na mão naquele dia.

Ela bem que tentou, mas não houve jeito. Um ano de cutucadas depois, Anita e Pedro se separaram. Hoje ela trabalha na loja de lingeries da filha e namora Wagner, um coroa charmoso e elegante com quem se diverte bastante. Ele realiza todas suas fantasias, e ela as dele. Wagner quer se casar. Anita não. Toda vez que ele toca no assunto, ela sente uma cutucada.
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Conto enviado por Roberto Guerra. Jornalista, contista e leitor deste blog.

Não faz mal...

por em 9/09/2009 às 18:18

É incrível. Preciso escrever e dizer exatamente 200 vezes a mesma coisa para que você compreenda o que quero dizer. Você não lê. Você não ouve. Eu não quero você assim. Eu quero você de verdade. Não adianta eu acordar quente e feliz ao seu lado e depois sentir mais frio quando você se for. Queria que você me amasse por inteiro. Cegasse de paixão. Queria que você quisesse ser meu. Eu posso ter quem eu quiser, mas quero você. Eu até minto para mim que vou te aceitar do jeito que você é. Com teus defeitos e qualidades. No fundo sei que é mentira. Isso só vai acontecer até eu te convencer a fazer as coisas como eu quero. Você vale a pena. Você sabe várias coisas sobre a vida. Sei também, que você sabe o que é amar até doer. Você entende. Só que é incapaz de olhar para mim quando estou me contorcendo de dor. Tudo bem, não faz mal. Eu te amo mesmo assim. Mas não quero você assim. Eu quero você de verdade.

Poema em linha reta

por em 9/09/2009 às 17:06

Por Álvaro de Campos

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Insônia

por em 2/09/2009 às 16:17

Marina estava com insônia. Tudo a irritava. O calor. O barulho do relógio. O elevador. Os carros. Os aviões. O lençol. A cama. O corpo. O cabelo. Não tinha mais como ficar deitada, era impossível. Levantou e sentou-se à mesa onde ficava o computador. Olhou o teclado e viu que estava sem o jota. No dia anterior, havia tentado limpar debaixo das letrinhas. Agora, o teclado parecia um mendigo desdentado, sem o jota e sem o insert. Ela arrancou o insert porque acreditava que aquela tecla não servia para nada. Só atrapalhava. Odiava o insert. Se pudesse, faria uma campanha para que todos arrancassem os inserts das suas vidas. Eram apenas seis horas da manhã e ela não aguentava mais o dia.

Foi na janela e ficou observando os guardadores de carros assobiarem. Queria entender o motivo que os levasse a tal ato, tão cedo. Algumas vezes, ela acordava com os assobios altos e com uma variedade de sons longos e curtos. Seria um código? De qualquer forma, desejou que todos parassem de assobiar. Eles faziam sinfonia com os pássaros. Marina odiava os pássaros. Para ela, foram eles que derrubaram as suas flores suicidas, o que as tornaria imediatamente flores assassinadas. Estúpidos. Se não foram eles, elas fizeram um pacto. Suicídio coletivo. Passaria o resto da vida com essa dúvida. Marina estava cansada.

Sua cabeça estava latejando e o dia ficava cada vez mais cinza. Voltou para a cama. Tentou contar carneirinhos. Tentou relaxar, começando pelo pé e ia subindo, mas quando chegava o cotovelo ela já tinha se desconcentrado. Tentou pranayama. Tentou tudo e nada do sono vir. Ficou com desejo de quebrar o elevador. Chutar os relógios. Arrancar os lençóis. Depenar o travesseiro, furar os pneus dos carros e jogar latas nos aviões. Quase sete horas. Puta que pariu, puta que pariu – pensou. Ela só queria parar de morder as bochechas, de bater o pé na parede, de pensar. Parar de pensar. Ficou pensando na aula de sociologia econômica brasileira e quase começou a ficar com sono, só de lembrar.

Tentou desligar o cérebro. Mas nem isso a fez dormir. Quase oito horas e lá estava ela abraçada com as sobras do champagne da noite anterior. Anterior? Ela nem dormiu. Poderia dizer que era desta noite. Não sabia como tinha sobrado, mas ainda bem que sobrou. Estava bebendo para dormir. Não acreditava. O elevador não parava. Nunca um elevador subiu e desceu tantas vezes em uma só manhã. Acreditou até que estava acontecendo um revezamento para a compra de pão, cigarros e leite de todos os membros de todos os apartamentos. Quando um está chegando, o outro já espera na porta e assim por diante. Andar por andar. Era a única explicação. Oito e meia.

O dia estava cegantemente claro, o sol batia nos prédios e franzia a testa e os olhinhos da Marina. Os olhos dela encheram de lágrimas. Quase chorou. Ela tentou de tudo. É o fim. Ela não iria mais dormir hoje. Oito e quarenta e cinco. Toca o celular do indivíduo desconhecido com quem ela dividia a cama. Ele acordou assustado, abriu um olho, espreguiçou, olhou e zombou da cara de sono dela. Marina respirou fundo e berrou com o infeliz: “Estaria melhor se você não roncasse igual a um trator da pior construção do mundo”.

O homem vestiu as calças aos gritos de Marina. Saiu desnorteado pela porta do apartamento sem nem entender o que aconteceu. Marina ligou para o trabalho e disse que iria tirar o dia de folga. Jamais iria levar um desconhecido para sua casa novamente. Não, sem antes perguntar se ele ronca.

Quem conhece a vida não se desespera

por em 1/09/2009 às 21:02

Uns chamam de Universo, sorte, destino, ou até mesmo Deus. Independente do nome, acredito mesmo que as coisas conspiram ao nosso favor.

Acredito que forças mais fortes que o próprio entendimento humano agem o tempo todo para que o caminho de cada um seja tecido de uma maneira justa e amável, e que cada vez que sofremos ou que nos decepcionamos, é para que estejamos preparados para receber as coisas boas e felizes que estão por vir.

E não adianta só esperar os tempos de glória, é preciso se preparar pra ele. É como se preparar para uma festa muito importante, que você quer ir arrasando de vestido maravilhoso e sapato novo, maquiada e magnífica, mas você não sabe a data nem o horário, então você tem que estar pronta a tempo todo. Só que em vez de você se arrumar fisicamente, você se prepara espiritualmente. Lembra daquele papinho de arrumar o jardim pras borboletas virem voando até você? É mais ou menos isso, só que não te dá a chance de trazer também as baratas e os besouros, porque sejamos sinceros, não é só borboleta e passarinho fofo que gosta de jardim arrumado.

Todo dia eu levanto com a sensação que eu vou receber uma boa notícia, ou que vou reencontrar uma pessoa amada, ou vou aprender algo que preencha a minha alma. E mesmo que nada disso aconteça, eu estava preparada para o bem, então eu não atraí o mal pra mim, nem pra quem estava do meu lado.

A vida nunca vai deixar que saibamos o que está para acontecer, quando será a grande festa ou quem vai entrar e sair das nossas vidas. É tudo questão de otimismo, e de estar preparado.

Como adestrar seu homem II

por em 26/08/2009 às 14:41

Karen Salmansohn escreveu a obra “Como adestrar seu homem em mais ou menos 21 dias usando os segredos dos treinadores de cães”. Ela diz na ‘orelha’ do livro: “É comum ouvir a frase: os homens são uns cachorros. Bem, na minha opinião, existe muita verdade com “V” maiúsculo por trás desse pequeno provérbio dito a torto e a direito. Essa é a segunda parte deste post, se você quiser ler a primeira basta clicar aqui .

Agora vamos a mais dicas:

- Certifique-se de introduzir seu cão lentamente nas diversas facetas de sua vida, caso contrário, poderá provocar comportamento neurótico e frenético; isto é, ele talvez se torne destrutivo e quebre alguma coisa.

- Sempre diga NÃO claramente, sem deixar dúvida sobre as intenções. Com o tempo você conseguirá comunicar seus pensamentos mais íntimos com um simples olhar.

- Não demore para aplicar castigos. Para uma comunicação eficaz, você deve puni-lo logo após o mau comportamento; isto é, esfregue imediatamente o nariz dele na sujeira que fez. Não hesite. Na próxima vez ele pensará melhor antes de fazer besteiras.

- Desde o primeiro dia você deve assumir a posição de liderança. Seja dura. Nunca se mostre boazinha demais com um cão que se comporta mal, na esperança de dobrá-lo. Recuse afagos e brincadeiras a um cão desobediente -resistindo ao seu olhar de cachorrinho. Ele compreenderá QUEM MANDA.

- Lembre-se: o amor dos cãezinhos é fugaz. Por exemplo, nas primeiras duas ou três semanas de contato, você pode se encantar pelo modo como seu cão a acorda às 6 da manhã, com lambidas e empurrões entusiásticos, louco de desejo. Mas lá pela quarta semana talvez você prefira esperar até o meio-dia para sentir esse amor todo. Seja precavida. Não permita que ele adquira hábitos frívolos nas primeiras semanas, ou mais tarde seu cachorro não entenderá por que você não acha uma gracinha quando ele a cheira diante dos convidados.

E não esqueça:

* Até adquirir confiança mantenha-o preso na coleira.

* À medida que for confiando, aumente o comprimento dela.

* Adote uma estrangueladeira.

* Não afrouxe a coleira até ter total confiança no laço estabelecido.

———-
Fonte: SALMANSOHN, Karen. Como adestrar seu homem em mais ou menos 21 dias usando os segredos dos treinadores de cães.

Segredo de dois, só matando um

por em 25/08/2009 às 5:00


“Não te abras com teu amigo

Que ele um outro amigo tem.

E o amigo do teu amigo

Possui amigos também…”


Mário Quintana

Uma caixa verde pistache com corações coloridos onde eu guardo todos os meus segredos. Emoções, reencontros, mágoas, esperanças, felicidades, ingressos de cinema e pápeis de bala. Tudo escondido dentro de uma caixa simples, no fundo do armário, longe de qualquer olhar vil ou opinião não solicitada.

Finalmente eu aprendi que em boca fechada não entra mosquito, e nem sai cobra. Já morri muitas vezes pela boca, e abri caminho para que entrassem demais num mundo que é só meu e que ninguém entende, que ninguém nunca vai entender. Se abrir demais é dar direito a outra pessoa de conhecer teus truques e armas, ler teus pensamentos e parar de te respeitar, por achar que te conhece muito bem.

Segredos são de você pra você mesmo, e cada vez que você conta pra alguém, são palavras que não tem destino incerto, que vão cair como sementes muito férteis em solo duvidoso, que poderão germinar da maneira mais torpe possível, diferente de tudo que realmente seja.

Enquanto isso, a minha caixa está lá guardada, com todos os meus segredos que, às vezes, eu não conto nem pra mim…

O choro

por em 16/08/2009 às 23:40

Hoje eu chorei. Fazia muito tempo que isso não acontecia. Dizer que chorei, analisando a frase sozinha, assim no meio do texto, até parece que é algo ruim. Mas é mentira. Não é ruim. Chorar não é para qualquer um. Tem gente que não consegue chorar. Isso é uma dádiva. É como a chuva na terra seca. Tem gente que não sabe chorar. Abusam e se afogam em lágrimas. Você já sentiu que a tristeza é seca? Sufoca o peito. Dói. Um nó na garganta que impede qualquer coisa sair ou entrar. Eu passei os últimos meses assim. Nada entrava, nem saia. A pedra sufocando o meu peito, ferindo, apertando tudo e impedindo meu coração de bater. Eu estava seca. Seca, sozinha, perdida e sem razão. E agora parece que choveu. Eu chorei tudo que não tinha chorado. Soluçando como criança. Aí, eu respirei. Gritei. Acordei. Tudo voltou, passou. Renasci. Mais uma vez. Estou forte. Eu sou o que ninguém espera que eu seja. Eu não estou sozinha, eu estou com você, comigo, com eles. Eu estou e nunca mais deixarei de estar. Eu sou e nunca mais deixarei de ser. Não há mais angústia dentro de mim. Choro porque estou feliz.

Carentes e ingratos

por em 13/08/2009 às 0:50

O mês tinha acabado e, pela primeira vez na vida, me sentia verdadeiramente útil. Havia sido convidado para dar aulas de redação para um grupo de jovens carentes. Sem grana para pagar um cursinho, tinham de contar com a boa vontade de voluntários. O líder comunitário do bairro, uma cara chamado César, fez a proposta. Duas aulas por semana, à noite, durante dois meses. Nada de cachê, ajuda de custo ou qualquer outra forma de remuneração. Cafezinho, água e olhe lá. Topei. O centro comunitário ficava perto de casa e, afinal, um homem tem de fazer algo por seus semelhantes pelo menos uma vez na vida.

A turma tinha uns 30 alunos, a maioria na faixa dos 17, 18 anos. Uma meia dúzia na casa dos vinte e poucos. Notei umas jovens carentes bem interessantes na sala. Começava a gostar desse negócio de bancar o professor. Minha tarefa não era das mais fáceis. A maioria dos alunos escrevia de modo sofrível. Era humanamente impossível mudar isso em dois meses. Minha estratégia, então, foi ensiná-los algumas técnicas para minimizar os possíveis erros. Não tinha a menor idéia se daria certo ou não, mas não enxergava outra saída.

Estava em casa tomando uma cerveja e lendo Bukowski quando o telefone tocou.

- Alô?

-Guerra?

-Sim.

-Aqui é o César, tudo bem?

-Tudo, cara. O que manda?

-No sábado, todos os centros comunitários ligados à CJC vão se reunir na sede estadual para fazer uma homenagem àqueles que nos ajudaram este ano. E você é um dos homenageados.

-César, deixa isso pra lá. Não curto esse negócio de homenagem.

-Mas você tem de ir, cara. Os alunos fazem questão. Vai ser uma superfesta. E não se preocupe porque vou te pegar em casa.

- Cara, sei não…

-Sem conversa, Guerra. Sábado às 11h.

-Tudo bem.

Às 11h em ponto a campainha tocou. Odeio gente pontual, principalmente aos sábados pela manhã. A tal sede estadual ficava em Nazaré Paulista, interior do Estado. Duas horas de viagem no máximo, me garantiu César enquanto deixávamos São Paulo. Quando chegamos fazia um calor daqueles. Céu limpo, nenhuma nuvem no horizonte. Minha cabeça só conseguia pensar numa cerveja bem gelada. O lugar era enorme e ficava no meio do nada. Abrigava centenas de jovens carentes. Ali também ficava o comando central da CJC, me explicou César.

- O que significa CJC? – perguntei a ele.

- Comunidade dos Jovens Cristãos – respondeu.

Comecei a ficar preocupado.

Fui deixado por César numa sala junto com outros homenageados. Uma velha obesa, vestindo um avental com as iniciais CJC bordadas em azul, servia água e refrigerante para um grupo de pessoas sentado numa mesa próxima. Veio em minha direção.

-O senhor gostaria de beber alguma coisa? – perguntou.

-Sim, uma cerveja, por favor.

-Aqui não temos bebidas alcoólicas, senhor. Ensinamos nossos jovens a se manterem afastados do álcool. – Ela disso isso com orgulho e um ar de superioridade.

-É assim que vocês pretendem me homenagear? – perguntei.

Ela fingiu não entender e me deu as costas. Sábado, calor de matar, sem cerveja e a quilômetros de distância do bar mais próximo. O pessoal não deve ter ido bem no vestibular, pensei.

Meu martírio estava apenas começando. Dali, fui levado para um auditório e obrigado a assistir a uma peça de teatro organizada pelos internos. Era a história de uma jovem de 18 anos que vivia angustiada, sem ânimo de viver, tratando as pessoas à sua volta com agressividade. Matei de cara o problema: falta de sexo. Uma boa trepada e estava tudo resolvido. Na peça, no entanto, ela se entrega a Deus e encontra a salvação. Ainda via no sexo o jeito mais simples de resolver a questão.

A “homenagem” não parou por aí. Depois da peça, um show de música gospel com duas horas de duração. Várias bandas e cantores se revezando no palco e eu sem uma corda ou arma para cometer suicídio. De vez em quando, só para me irritar, a senhora gorda vinha me oferecer refrigerante.

Consegui sobreviver. No carro, voltando para casa, disse a César que procurasse outro professor para a temporada seguinte. “Por quê?!, ele perguntou. “Odeio ingratidão”, respondi.


Conto enviado por Roberto Guerra. Jornalista, contista e leitor deste blog.

Amor obsessivo

por em 11/08/2009 às 18:14

Um assobio afinado rendeu uma gargalhada de Flávia. Ela sabia que seria assim. Um começo na metade. Tudo de novo. Frio na barriga, coração disparado, ansiedade tomando conta dos poros, perfume no ar, humor estável e o principal, todos os dias pareciam feriado. A felicidade refletia nas roupas que usava. Arrumava o cabelo sem preguiça e pintava os olhos. Nunca tinha tomado tanto cuidado com a postura e muito menos tinha o hábito de usar cinta-liga. Ela sabia e tinha convicção que seria a mesma coisa de todas as outras vezes. Não ligava para isso. Aquela falsa esperança de que essa sensação nunca teria fim, nunca terminaria mesmo com as amigas recriminando a tentativa de consertar os erros de um namoro falido. Elas acreditavam que não daria certo. Flávia não. Ela defendia que não existe começo, não existe fim. Ninguém pode fugir de si mesmo.

Sabia também que depois de toda a dor que sentiu, de toda a mágoa, Fernanda a faria chorar novamente de felicidade. Poderia ser com a palavra mais estúpida, a coisa mais gratuita, ela a faria chorar só de ouvir a sua voz. Pelo simples fato dele existir e andar e respirar e amar. Fernanda não precisava amá-la. Não precisava ser dela para todo o sempre. Flávia se contentava em saber que o coração dela pulsava e que tinha aprendido enfim que era capaz de amar. Em certo tempo, acreditava que a razão de estar viva era para vê-la bem, feliz, brilhando como ela tinha que brilhar.

Flávia já tinha a perdoado antes dela pensar em pedir perdão e antes de qualquer coisa. Sabia que Fernanda não havia pedido porque no mundo dela, não havia errado. Por isso a perdoava. No mundo de Flávia, o sorriso dela faria qualquer católico perdoar um milhão de Judas quantas vezes fosse preciso. Ela passaria por tudo de novo. Morreria. Secaria. Murcharia. Fernanda era o que Flávia queria ver. A pessoa que ela queria olhar. Podia ser de longe. Uma pessoa sagrada. Especial. Alguém que não entendia nada de amor, mas era capaz de deixar alguém de quatro só com um pedido de desculpas. A pessoa que faz o coração bater tão forte que treme as pernas cada vez que o nome aparece na vida. Porque Flávia morreria pela Fernanda. Morreria feliz e orgulhosa. Por que ela precisava dela por perto, do seu lado, na sua vida, assim como precisava de ar, de água, de amor. Nunca sem amor. Ela sabia que na verdade precisava de outro amor. Porque Fernanda não era amor. Ela era apenas uma obsessão.

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Dedicado a todas as “Flávias” e “Fernandas”.

Oração do Amor Efêmero

por em 7/08/2009 às 15:51

“Eu quero ir embora, eu quero um amor que me carregue para longe daqui, que me leve, me leve, me leve embora, me ame com força e desespero, machuque minha boca no primeiro beijo porque queria muito, que tatue meu nome no braço mesmo sabendo que não é para sempre. Vamos fugir, vamos sumir, ser estranhos longe de todo mundo. Eu quero um amor que me puxe com força e não me dê opção senão me deixar levar, eu quero ir, eu quero ir, eu quero ir embora daqui. Eu quero um amor que me perca, me ache, me deixe tonta e confusa, eu quero, eu quero um amor que me leve, que perca, me ache, que me ganhe de cara. Que me guie, me guarde, me governe, me ilumine, me incendeie, me cause insônia e raiva e ciúme e lágrimas e febre e riso. Eu quero um amor que me canse, me canse, não canse nunca e me canse e se canse. Eu quero um amor de verdade, puro, limpo, imaculado, sagrado, que vá até o fundo, até onde ninguém foi. Eu quero um amor que me olhe nos olhos, não tenha medo de se jogar no abismo, de se jogar em mim, disposto a arder no inferno por nós. Que esteja lá não importando para onde eu queira ir. Eu quero um amor de janta e café da manhã, que não prometa nada, que não dê nada além do que for tão verdadeiro que me deixe doente, louca, rouca, suada, cansada, que arranque minha paz junto com meu coração. Eu quero um amor que me leve até o fim.”

Desconheço o autor.