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Minha chefe disse que meu cabelo e maquiagem estavam me sabotando

por em 18/10/2012 às 15:43

Contos e Textos

Tem essas mulheres, de sapatilhas da Tory Burch, com seus cabelos arrumados, suas camisas de botão engomadas, e com os vincos de suas saias-lápis esticadinhos, sem o menor sinal de amassado. Eu sei que isso existe porque eu as vejo todo dia, seguindo para o trabalho como mouras, assim como eu, com seus lábios perfeitamente nude e suas bolsas obrigatórias da Longchamp.

Então, por mais que eu queira acreditar que a existência de tais níveis de elegância seja tão plausível quanto trombar num unicórnio, eu sei que isso existe — eu já peguei ônibus ao lado delas de manhã, silenciosamente mortificada. Porque, mais frequentemente do que eu gostaria, me esqueço de passar batom antes de sair de casa, minha saia está limpa, mas amassada por sentar durante o trajeto do trem, e minha própria bolsa obrigatória da Longchamp — uma concessão que fiz pelas estatísticas — possui 86% de sua área coberta por algo que imagino ser marshmallow. (Uma lambidinha furtiva mais tarde comprovaria que sim.)

Não é que eu seja uma desleixada. Eu sei como me vestir para meu emprego corporativo e quando eu chego no escritório há sempre uma paradinha no banheiro para checar se estou dentro dos padrões do traje casual-negócios. Isso quer dizer: o batom que esqueci foi passado, o cardigã vestido, o marshmallow limpo, o cabelo dormi-com-ele-molhado penteado para trás e preso em um rabo-de-cabelo, minhas botas preferidas trocadas por saltos altos delicados. Quando finalmente fico pronta, estou transformada de pessoa normal para uma secretária apropriada, e por que não, estilosa.

Como alguém que adora brincar de se montar, que adora usar maquiagem nos olhos e batom vermelho em sua vida civil, eu levei muito tempo para aceitar que para manter meu emprego na América corporativa, eu teria que seguir as regras. Uma vez que fiz isso, parei de correr riscos — claro, eu posso parecer a Sra. Doubtfire das 8 às 5, mas meu vestuário pós-trabalho de repente passou a incluir muitas, muitas camisas transparentes.
Eu achava que tinha me aperfeiçoado na arte de me misturar com o ambiente depois de um ano como funcionária temporária, até que minha supervisora me chamou na sala dela. Eu estava esperando uma promoção para a equipe permanente, então fui vê-la mais empolgada do que temerosa. Ela, pelo contrário, estava meio deslocada em sua cadeira, evitando fazer contato visual comigo. Quando ela abriu a boca e falou, meu chão caiu.

“Alguém veio me dizer”, ela falou, “que andam reclamando do que você tem feito com seu rosto e com seu cabelo”. 

Eu parei de respirar por um segundo, e quando falei novamente deixei sair um sapo da minha garganta. “Meu rosto e meu cabelo?” repeti como um papagaio.

Agora que ela havia começado a falar, foi difícil fazê-la ficar quieta. Enquanto esta pessoa misteriosa-e-provavelmente-do-alto-escalão não tinha reclamações a fazer dos meus trajes, ela achou que o jeito que eu arrumava meu cabelo e maquiava meu rosto era um indicativo de que eu não estava preocupada em crescer na empresa.

Eu concordava com a cabeça, mas por dentro eu ainda me recuperava. Basicamente, trocando em miúdos, eu havia sido avisada que alguém na firma não achava que eu era atraente o suficiente para ser promovida a funcionária permanente.

Como uma escritora aspirante, eu não deixei passar a ironia de que eu era potencialmente muito desajeitada para atender um telefone. Embora eu tenha apreciado isso menos do que passado o incidente, analisando com tempo e perspectiva.

No caminho do escritório da minha chefe até o RH, minha tristeza virou raiva e eu silenciosamente comecei a fumegar — eu ARRUMEI meu cabelo, eu FIZ minha maquiagem, eu me esforcei para fazer isso da forma apropriada para estas mesmas pessoas! Não só isso, mas eu era boa no que fazia. A ideia de que minha aparência física seria de tão mau gosto para alguém que ele potencialmente me negaria um emprego que me proveria benefícios mais do que necessários tem que ser, não só moralmente errada, mas ilegal.

“Ela chegou a falar que você precisa começar a fazer algo diferente na sua maquiagem ou cabelo?”, perguntou a moça do RH, sem piscar. Eu sacudi a cabeça, “Ela só — apresentou o fato de que alguém pensou que isso não me levaria a nada”.

A mulher do RH anuiu, como se esperasse por esta resposta. “Além das nossas normas de vestuário, não podemos legalmente te dizer como você deveria vir para o trabalho, mas…” O “mas” em questão é que no trabalho, assim como no dia-a-dia, as pessoas são inclinadas a fazer julgamentos instantâneos, e isso não é ilegal.
Saí do escritório instruída a aceitar as palavras de minha supervisora como um conselho bem-intencionado. Sem opções — além de virar a mesa e gritar com ela — eu saí de lá e tentei atender às suas expectativas.

Se eu já achava que ia fantasiada para o trabalho antes, agora eu sinto que estou usando uma máscara e uma peruca, também. Meu rabo-de-cavalo foi trocado por um topete que toma uma hora do meu sono; minha maquiagem neutra e óculos foram trocados por lentes de contato e tons de joia. Estas eram coisas que eu sabia fazer, e gostava de fazer — mas ir tão a fundo no meu arsenal de beleza para ficar sentada durante oito horas? Francamente, isso me pareceu ridículo.

Até que eu consegui a promoção que estava almejando.

Comecei a pensar sobre isso de novo quando li este artigo no Daily Mail. Eu imediatamente o mandei para um colega de trabalho que me conheceu durante a época pré-mudança. Ela riu e eu não a culpei. A noção de que o meu bronzeado poderia tornar um empregador menos inclinado a me contratar porque ele assume que eu gosto de perder tempo é ridícula. Tão ridícula quanto não contratar uma mulher cuja maquiagem é perfeita demais porque quer dizer que ela não serve para a vaga.

Mas eu não achei engraçado, porque embora eu estivesse no novo cargo por mais de um ano, e voltei disfarçadamente para meus dias de rabinho-e-óculos, eu não consigo me desfazer do sentimento de que só cheguei onde estou porque me curvei a esse tipo torto de raciocínio.

Ao aceitar essa linha de pensamento do jeito que fiz, sem virar a mesa (e talvez mandar um dedo) para a empresa onde trabalho, estava eu contribuindo para uma cultura que já é problematicamente obcecada com aparências? E você, se juntou alguma vez ao sistema e depois se arrependeu?”

Via: Jezebel

9 Comentários

  1. Joy disse:

    nossa nem animei ler tudo..muito grande..vamu dar uma resumida ai galera

    1. dani disse:

      É por causa de gente como vc que o país tá na merda.

    2. Julie Way disse:

      Ler um livro, então, deve ser uma tarefa apocalíptica, né?

  2. Jansm disse:

    “Joy” Burra! Vc é muuuito burra! Presta atenção na vida!!

  3. Déborah disse:

    Além disso, ser julgado/a por aquilo que se posta nas redes sociais, mesmo essa prática sendo proibida no Brasil. Se tem foto com bebida na mão, ou comentários esquerdistas, críticas à realidade/sociedade, ou até mesmo opiniões comunistas, são descartados do processo seletivo sem dó nem piedade.
    É uma fábrica de estereótipo que me choca.
    Tenho uma amiga que trabalho numa recepção de uma escola de inglês – não vem ao momento divulgar nomes – que pediram pra ela ir trabalhar com uma saia mais curta, um salto mais alto, e uma maquiagem mais pesada. E a função dela era apenas vender.

    Pra que né?

  4. Marilia disse:

    Foda isso viu, eu já passei e ainda passo, mais por me manter “sustentável” que por gostar… aceitar isso é dificil e doloroso, não fisicamente mais moralmente. Até quando será mais valorizado as aparências diante a sociedade, do que a competência na área profisional?

  5. Janaina disse:

    Olha é triste mesmo!!! da um arrependimento parece que voc esta matando oque voc é ! Mas é nessa hora que agente tem que lembrar que o sou PROFISSIOINAL é isso, não leve essa forma de viver ou (de atingir metas) para o resto da sua vida.Por isso é tão bom seguir a profissaão que gostamos . Mas voc chega lá amor, é so questão de tempo e outra não se culpe pela sua atitude voce esta cumprindo METAS bote isso na cabeça e siga em frente!!!!

  6. Touka disse:

    Agora experimente ter cabelos crespos, pele negra, ser gordinha… nem o emprego consegue. Sei por experiência própria, ou se curva ao menos a chapinha, ou fica desempregada.

    1. Fer disse:

      Isso quando a chapinha dá um jeito. Eu por exemplo, tenho curso técnico, ensino médio completo e tive que me curvar a aceitar um emprego em um lugar que o máximo que tu precisas pra entrar é saber ler e escrever, trabalha 10 horas por dia. A maioria dos que estão no alto escalão mal tem todos os dentes na boca, que dirá escolaridade completa.

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